| Agottani, J.V.B.a, Oliveira, K.B.a, Faysano, L.b Warth, J.F.G.c
a Divisão de Antígenos, Instituto de Tecnologia do Paraná, Curitiba, PR
b Laboratório Veterinária Preventiva, Curitiba, PR
c Universidade Federal do Paraná, Departamento de Medicina Veterinária.Curitiba, Pr.
DEFINIÇÃO:
A Leucose Enzoótica Bovina* (LEB) é uma doença infecciosa causada por vírus da família Retroviridae, que se caracteriza pelo desenvolvimento de duas formas clínicas :
A forma maligna tumoral e
fatal com formação de linfossarcomas em quase todos os linfonodos e
órgãos, a qual ocorre em 5 a 10% dos animais infectados e a forma benigna,
caracterizada apenas pelo aumento geral do número de linfócitos
sangüíneos, denominada de linfocitose persistente (LP), de ocorrência
em 30% dos animais infectados*.
Observações :
*Consideram-se
quadros hematológicos de linfocitose persistente quando ocorrer um
aumento nas contagens absolutas de linfócitos observadas durante três
meses consecutivos em animais sem manifestações clínicas de neoplasias
linfoproliferativas.
HISTÓRICO E PREVALÊNCIA:
A
primeira ocorrência da LEB foi na Alemanha, em 1871, provavelmente,
devido a importação de bovinos infectados vindos dos Países Bálticos.
Do continente europeu, a virose foi levada para os Estados Unidos, no
final do século XIX, sendo descrita no continente americano ainda antes
da Segunda Guerra Mundial. A partir de então, a infecção espalhou-se
entre os rebanhos americanos e canadenses tendo, agora, uma alta
prevalência em muitas fazendas leiteiras destes países.
Em
1984, em levantamento sorológico realizado em rebanhos leiteiros de
alguns estados norte-americanos, foi relatada a prevalência da infecção
pelo vírus da LEB em taxas que variaram de 22% a 47%. No Brasil,
levantamentos sorológicos realizados em 1991, indicaram a prevalência
entre 12,5% a 72,9%.
ETIOLOGIA:
O agente etiológico da LEB é denominado Vírus da Leucose Bovina (VLB). Pertence à família Retroviridae, à sub-família Oncovirinae,
e ao gênero Deltaretrovirus. Possuem uma única fita de Ácido
Ribonucléico (RNA). Apresentam a capacidade de transformar seu material
genético em DNA, através da enzima Transcriptase Reversa, inserindo-se
no genoma celular como provírus, mantendo-se nesta forma por longo
período de incubação. São vírus envelopados sendo por isso facilmente
inativados por solventes (éter, álcool e clorofórmio), detergentes
lipídicos e aquecimento a 56 º C.
TRANSMISSÃO:
Historicamente,
a alta prevalência de linfossarcomas observada no rebanho sueco, por
exemplo, foi associada ao uso de sangue fresco de bovinos doadores
infectados com Babesia bovis, utilizado em programas de
premunição contra a piroplasmose durante sete anos. Levantou-se, a
partir de tal prática, a possibilidade de que o agente infecioso
estivesse presente no sangue de animais infectados. As suspeitas tinham
fundamento.
O vírus geralmente é transmitido através do sangue de um animal infectado.
Transmissão horizontal:
comumente ocorre através de agulha ou seringa reutilizada, descornador,
tatuagem, equipamento de castração, transfusão de sangue, utilização da
mesma luva de toque retal para diversos animais, mesma argola (em
touros) e monta natural. Animais confinados estão mais suscetíveis a se
infectarem através de secreções nasais, saliva, urina, fezes, descargas
uterinas.
Transmissão vertical:
A transmissão para os fetos pela placenta é possível, mas ocorre não
mais do que 4 a 8% dos casos. Quando bezerras são alimentadas com leite
ou colostro de mães infectadas, a transmissão horizontal pode ser
menor, pela presença de anticorpos anti-VLB na secreção. Para evitar a
possibilidade de transmissão para o neonato através do colostro ou
leite de vacas infectadas preconiza-se o aquecimento desta secreção
láctea a 56 ºC por 30 minutos, ou a utilização de um banco de colostro
proveniente de vacas negativas, conservado a –20ºC em freezer.
A pasteurização destrói facilmente o vírus.
Não é considerada uma Zoonose. Podendo, o leite e a carne bem como seus derivados, serem consumidos sem preocupação.
A
transmissão entre espécies já foi constatada em ovinos, porém, não
apresentando sinais de linfocitose. Infecções experimentais foram
relatadas, também, em outras espécies como chimpanzés, outros macacos,
suínos, coelhos, ratazanas, cães, galinhas e gatos.
QUADRO CLÍNICO
Sinais clínicos:
Quadro 1: Principais sinais clínicos da forma multicêntrica do adulto com sua relação anatomo-patológica.
SINAIS CLÍNICOS |
PROVOCADO POR |
Perda de peso |
Diarréia, anorexia, outras causas não determinadas |
Aumento de linfonodos superficiais |
Presença de linfócitos tumorais |
Baixa de produção de leite |
Anorexia, diarréia, outras causas não determinadas |
Anorexia |
Causas não determinadas |
Aumento de linfonodos (internos) (verificável pela palpação retal) |
Proliferação de células tumorais |
Paresia dos membros posteriores |
Infiltrações tumorais na região epidural da medula espinhal |
Anemia |
Hemorragia com perda de sangue pelo trato gastrointestinal, principalmente abomaso |
Febre |
Necrose tissular, infecções concomitantes, outras causas não determinadas |
Exoftalmia |
Infiltração de células tumorais nos tecidos retrobulbares |
Dispnéia |
Compressão das vias aéreas por linfonodos aumentados de volume |
Constipação |
Compressão do tubo gastrointestinal por linfonodos aumentados |
Alterações cardíacas (insuficiência cardíaca) |
Infiltração de células tumorais no miocárdio |
Edema subcutâneo ventral |
Insuficiência cardíaca congestiva |
Pulso venoso positivo |
Insuficiência cardíaca congestiva |
Parto distócico |
Compressão das vias do parto por linfonodos aumentados de volume |
Morte fetal |
Infiltração tumoral na parede do útero |
Hidronefrose |
Compressão dos ureteres por linfonodos aumentados |
FONTE: OLIVEIRA, K.B., 2000.
Formas:
Maligna : Linfossarcomas (multicêntrica dos adultos),;
Benigna: Linfocitose persistente (processo linfoproliferativo benigno).
Patogenia: conseqüências possíveis após a exposição de bovinos ao vírus da LEB:
O
linfossarcoma é mais comum entre 3 e 6 anos de idade. Pode ocorrer em
linfonodos periféricos, linfonodos internos, abomaso, coração, útero,
espaço retrobulbar e região epidural do sistema nervoso central.
Pode ocorrer:
Dados obtidos após observações clínicas em1398 animais apresentando a forma tumoral.
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Figura 1: Animal com exoftalmia unilateral. |
Figura 2: Animal com aumento na região submandibular. |
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Figura 3: Tumor na região do abomaso. |
Figura 4: Linfonodos infartados. |
Linfocitose Persistente:
Tem sido admitido que rebanhos com um alto índice da forma adulta, com
a presença de linfossarcoma, muitas vezes, contêm alguns animais com linfocitose persistente (LP).
Em aproximadamente dois terços dos casos, o desenvolvimento do
linfossarcoma é precedido vários anos por LP, sem qualquer sinal de
doença clínica. Por causa desta associação, tem sido comumente assumido
que a LP é a forma subclínica do linfossarcoma. Desta forma, a leucose
enzoótica bovina tem sido descrita como tendo uma fase pré-tumoral,
caracterizada pela LP, seguida por uma segunda fase, na qual aparecem
tumores leucóticos.
Fatores Genéticos:
LEWIN & BERNOCO, em 1986, realizaram testes de associação entre
fenótipos/alótipos BoLA (antígenos associados a membrana citoplasmática
dos linfócitos B de bovinos) e infecção por VLB e LP, usando um painel
internacional de aloantisoros bovinos. A resistência à LP entre os
animais soropositivos foi associada com a presença do antígeno
denominado de BoLA-DA7, e a susceptibilidade foi associada com o
antígeno BoLA-DA12.3. Isto sugere que a seleção genética de bovinos com
linfócitos B, de linhagens resistentes a proliferação celular pode ser
possível de ser desenvolvida.
DIAGNÓSTICO
Diagnóstico clínico:
Animais
adultos, com mais de 3 anos de idade, apresentam progressivo e visível
aumento de volume dos linfonodos subcutâneos principais, simulando
linfoadenopatias infecciosas, porém, sem febre. Uma vez presentes,
torna-se fácil o diagnóstico da Leucose de ser realizado através de
biópias enviadas para exames histopatológicos cujos resultados destas
tumorações são classificados como do tipo linfossarcoma. O diagnóstico
torna-se difícil quando estas tumorações encontram-se internalizadas ou
disseminadas em linfonodos secundários no interior das cavidades
toráxicas e abdominais de difícil acesso. Porém, quando há perturbações
digestivas crônicas (meteorismo, diarréia), aumento de linfonodos,
exoftalmia e, mais raramente, paresia, paralisia e placas cutâneas,
deve-se suspeitar igualmente de leucose enzoótica .
Realiza-se o diagnóstico clínico inspecionando-se os olhos e palpando-se diversos grupos de linfonodos de órgãos, como o útero.
Diagnóstico laboratorial:
-
Histopatológico, através de biópsias ou fragmentos de orgãos: linfoadenoses (forma folicular e difusa de leucose), reticulose, reticulossarcomatose e formas mistas de alterações.
-
Hematológico, através da contagem de linfócitos:
a linfocitose sugere infecção por VLB, mas não descarta a possibilidade
de outras doenças; a ausência de linfocitose não exclui a possibilidade
de infecção pelo VLB. A LP é diagnosticada realizando-se várias
análises consecutivas (pelo menos 3) a intervalos de 1 mês.
-
Imunológico, através do diagnóstico sorológico:
Técnicas como a Imunodifusão em Ágar gel, ELISA ou Radioimunoensaio são
as mais utilizadas, Sendo as duas primeiras as de eleição pela OIE (Office International des Epizooties).
Existem técnicas sorológicas nas quais se utilizam amostras de leite ao
invés de amostras de soro sangüineo, apresentando igual sensibilidade.
-
Sondas Genéticas:
Através da Técnica da PCR (Polymerase Chain Reaction), e com a
utilização de “primers” iniciadores, pode-se identificar, em células
bovinas infectadas, sequências de DNA características do retrovírus
(virion completo) ou do provirus.
Reações
falso-positivas podem ocorrer em animais que receberam anticorpos pelo
colostro de mães positivas. Neonatos, que ingeriram colostro de vacas
positivas e que estão com menos de 6 meses de idade, podem ainda
resultar positivos devido a presença destes anticorpos colostrais, que
ainda não foram eliminados. Animais com idades acima de 6 meses com
resultados positivos por três exames consecutivos (em intervalos de 1
mês) devem ser considerados como positivos e infectados.
Reações
falso negativas podem ocorrer em animais infectados cujo sistema imune
ainda não respondeu a infecção viral (denomina-se este lapso, ou demora
de resposta imune, de “janela imunológica”). Para tanto, em caso de
resultados sorológicos iniciais negativos pós-infecção, serão
necessários esperar-se 3 meses para considerar-se animal infectado ou
não infectado, a semelhança do que ocorre com infecções humanas com o
vírus HIV.
Vacas
infectadas podem apresentar reação sorológica negativa (falso-negativa)
quando os exames sorológicos forem realizados de entre duas a seis
semanas antes e depois do parto. Os títulos sorológicos tornam-se
novamente detectáveis seis semanas após.
 |
Figura 5: Teste de Imunodifusão em Ágar Gel, mostrando as reações negativas (1) e positiva (2). |
Tabela 1 – Interpretação dos resultados de exames sorológicos para a Leucose Enzoótica Bovina.
IDADE |
RESULTADO SOROLÓGICO |
ÚLTIMO CONTATO COM ANIMAL INFECTADO |
INTERPRETAÇÃO |
Menos de 7 meses |
Positivo |
|
Se
nascido de vaca infectada: impossível de distinguir os anticorpos se
resultantes de infecção ou se são do colostro. Retestar após 7 meses ou
utilizar outra técnica como por exemplo a PCR.
Se nascido de vaca soronegativa, ou se não ingeriu o colostro de vaca soropositiva, está infectado |
Negativo |
Menos de 3 meses |
Retestar três meses após o contato com bovino infectado. |
Mais de 3 meses |
Animal não infectado. |
Mais de 7 meses |
Positivo |
|
Animal infectado. |
Negativo |
Menos de 3 meses |
Retestar três meses após o contato com bovino infectado. |
Mais de 3 meses |
Animal não infectado. |
FONTE: Adaptado de TOMA et al., 1990
PREVENÇÃO E CONTROLE:
Uma
vez constatada na propriedade a presença de animais sorologicamente
positivos ou animais apresentando forma clínica da doença, recomenda-se:
Em
caso de Programas de Erradicação da Leucose Enzoótica Bovina,
recomenda-se a eliminação sumária de todos os animais com sorologia
positiva, além das medidas gerais sugeridas acima , que visam a
manutenção de rebanhos lívres.
Quadro 2: Prevenção da transmissão do Vírus da Leucose Bovina (VLB) através de sangue contaminado.
PROCEDIMENTO CRÍTICO-Fatores de risco considerados altos |
AÇÕES CORRETIVAS |
Intervenções cirúrgicas |
Desinfetar (submersão em hipoclorito de sódio), lavar e ferver o material |
Tatuagem e colocação de brincos |
Desinfetar o instrumento após cada uso |
Descorna |
Desinfetar
o descornador após cada uso. Controlar hemorragia por hemostasia.
Aplicar anti-séptico em aerossol e repelente. Usar descornador elétrico
ou ferro quente |
Vacinações, injeções, coletas de sangue e terapêuticas grupais com utilizações de agulhas |
Usar agulhas descartáveis individuais ou desinfetar agulha após cada uso |
Palpação retal |
Usar luvas descartáveis individuais |
Premunição e transfusões sangüineas |
Manter os doadores isolados e somente utilizá-los após de 3 testes consecutivos de IDAG negativos com intervalos de 2 meses |
Introduzir animais positivos em rebanhos negativos |
Adquirir animais de propriedades idôneas com atestados negativos |
FONTE: OLIVEIRA, K.B., 2000.
Observações:
Transferência
de embrião de vacas positivas (de alto valor genético), sêmem de
reprodutores positivos (de alto valor genético), saliva de animais
infectados, leite ou colostro de vacas positivas, bem como a realização
do teste de tuberculinização intradérmico, são práticas em que os
riscos de transmissibilidade são considerados limitados.
Práticas
de excisão de tetos supranumerários, contato próximo de animais
positivos com negativos, são considerados como fatores de
transmissibilidade suspeitos.
Importante: O controle irá reduzir drasticamente a incidência; porém, não eliminará a enfermidade.
CONCLUSÃO:
Os
índices moderados de prevalência e a lenta difusão da infecção,
observados na maioria dos rebanhos, favorecem a execução de medidas de
controle. O desconhecimento da enfermidade, a ausência de legislação
oficial no Brasil e o fato de que a infecção pode permanecer inaparente
na maioria dos casos, fazem com que a maioria dos proprietários não
manifestem interesse nesse sentido.
Mais
de 95% dos animais infectados pelo VLB não manifestam clinicamente a
doença, embora possam transmiti-la. Por isso, são denominados
portadores sadios, os quais são os maiores responsáveis pela
disseminação da doença. Infecções iatrogênicas devem ser evitadas
através da divulgação, para todos os médicos veterinários, dos riscos
de transmissão provocada por práticas profissionais não condizentes .
Dessa
forma, evidencia-se a importância do diagnóstico laboratorial no
controle da LEB pela detecção de animais portadores. Vários países
europeus, incluindo a Dinamarca e a Alemanha, erradicaram essa
enfermidade adotando programas para a remoção de animais portadores de
seus rebanhos, utilizando o teste de imunodifusão em ágar gel. Apesar
de não se pensar em programas de erradicação a serem executados em
nosso país, preconiza-se a execução de programas de controle,
possibilitando ao criador a eliminação gradual de animais positivos,
sem prejudicá-lo do ponto de vista econômico. O criador poderá
substituir seus animais positivos pelos próprios descendentes destes,
podendo, no final da vida produtiva de suas vacas, aproveitá-las para o
consumo da carne.
Perspectivas Futuras de Vacinas contra a Leucose Enzoótica Bovina
Experimentos
com bovinos vacinados com antigenos inativados (glicoproteina de
envelope, gp 51) e, posteriormente, inoculados com linfócitos de
animais infectados, mostrou que 75% dos animais estavam protegidos da
agressão. Porém, quando a dose inoculante foi maior, o número de
animais protegidos caiu para 16%. Vacinas recombinantes, expressando a
gp51, mostraram-se efetivas, suprimindo a replicação viral em
linfócitos periféricos. Porém, a vacina não protegeu completamente os
animais da infecção. Animais vacinados com gp 51, dão reações positivas
em testes sorológicos, dificultando a diferenciação entre animais
imunizados e infectados. A utilização da proteína 24 (p24) como
antígeno de diagnóstico, é a alternativa de escolha, caso programas de
vacinação contra esta doença sejam preconizados no futuro.
Observações Finais:
A
Leucose Esporádica Juvenil, bem como a Leucose Esporádica Adulta, não
são causadas pelo VLB, não sendo, portanto, identificados pelo teste de
Imunodifusão em Ágar Gel.
Algumas características destas formas de Leucose:
- Esporádica Juvenil (animais com menos de três anos de idade):
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